NIÑA
Hoje tu puseste canções ciganas e a saudade apertou teu
coração. Sei que não choras de tristeza e sim de
saudades. Foram tempos difíceis sim, mas tempos felizes.
Nossas roupas eram simples, pé no chão muitas vezes. A comida
escassa – e o desprezo dos brancunchos*
que nos amaldiçoavam e nos escorraçavam como se fôssemos
demônios – ladrões de crianças, trapaceiros,
feiticeiros.
Mas nós éramos tão felizes. Tínhamos a estrada.
Tínhamos o vento, o sol, a chuva, a neve, os pássaros, as
flores e toda a natureza.
Vivíamos na terra e não precisávamos possuí-la...
Tínhamos o riso, a música e a dança. O céu
estrelado era a nossa tsara* e Deus o grande
Barô Cumo – guiava nossa kumpania*
pela estradas do mundo. Éramos livres romi*. E
o amor pela liberdade nos fazia suportar tudo com alegria.
Hoje do lado de cá (no astral) – podemos compreender porque
nós assustávamos tanto. A nossa liberdade assustava aqueles
que tinham dinheiro, poder, mas eram na verdade escravos. Em volta da fogueira a puri* – contava para os
pequenos, histórias lindas sobre a origem do nosso povo. Que não
era a Índia nem o Egito, mas as estrelas que brilhavam lá
no alto.
Éramos andarilhos das estrelas peregrinando aqui na terra para
aprender e para ensinar. Muitas dessas estrelinhas ainda vivem hoje na
carne – vivendo como ciganos (poucas, muito raras) e não
ciganos (muitas).
Muitos dos nossos já se foram romi* – voltaram
para a pátria. E por isso que hoje, dia da Mãe Querida –
que o nosso povo honrou como Sara, a Kali - sentiste a tristeza e a saudade.
Mas te digo niña – muitos se foram – mas muitos permanecem.
No astral – como uma grande Kumpania de Luz – continuamos
o nosso trabalho. Inspirar a liberdade, a fraternidade e a alegria aos
nossos irmãos terrenos. Na carne...como irmãos que se encontram
e se reconhecem pelo olhar – independente da cor que trazem na pele
ou da raça a que pertencem. Hindus, árabes,
moldavias, calons, brasileiros, egípcios ou kalderaches– somos todos irmãos na Luz.
Dia virá romi, que tu irá juntar-te a nós. Mas ainda
é tempo de trabalhar na carne.
Por isso niña, não chores. Vista-se de cores e dance...!
Toque seu panderito de fitas coloridas – como fazias em terras de
Espanha.
Peregrinamos por tantos povos – encarnamos em tantas raças.
É tudo aprendizado criança... É tudo evolução.
Hoje tu és uma romli drabarni mamiorri (uma
cigana curandeira). Mas tu usas mais as palavras que as ervas. Que elas
sejam, pois abençoadas. Que tu possas ajudar muitos a se curarem
através delas. Por que a verdadeira cura romi, é a liberdade
da alma.
Que
Santa Sara abençoe a tu e aos que lerem essas palavras!
Salves
ABUELLITA
Texto
escrito por inspiração dia 24 de Maio de 2007 ás
17;00 hrs.
Nota:
Abuellita é uma amparadora
cigana – ela mesma foi uma puri – a matriarca do grupo cigano
a que pertenceu. Ela se plasma bem velhinha – uma abuellita (uma
avozinha – muito amorosa e muito sábia). Ela me inspirou
esse texto – e confesso a vocês que ainda estou muito emocionada
pelo conteúdo. Posto esse texto a pedido dela.
Amor Paz e Luz na estrada de todos! Que Santa Sara abençoe a todos
nós!
Irene
Carmo Pimenta
NOTAS:
Brancuncho
– homens brancos (penso que eram os europeus) Tsara - tenda, casa kumpania – o grupo cigano Puri – a matriarca da tribo Romi – cigan