A purificação virá...
A Grande-Mãe nos embalará em seus braços
e secará nossas lágrimas
e Grande-Pai caminhará entre nós.
Será esta geração
- todos vocês - que tornará isso possível
e o círculo rompido da nação
será novamente refeito.

HEHAKA SHAPA (ALCENEGRO)
Na tradição xamânica, os curandeiros trabalham em relação estreita com o mundo dos espíritos. Todos dizem ter guias que lhes falam e propiciam métodos ou vias de cura. Os xamãs os invocam recorrendo a cânticos sagrados. Certamente existe uma conexão entre estes e os hinos de diversas correntes religiosas. Um dos segredos da cura xamânica não é outro senão uma transferência de energia vibratória - de uma onda sonora - de uma pessoa para o órgão doente de uma outra. Quando uma parte do corpo está doente, é o conjunto que se acha em ruptura de harmonia. Cada órgão, cada célula possui uma ressonância, um padrão vibratório. Quando um órgão está doente, não recebe mais a energia vibratória do resto do corpo; vibra numa freqüência em desarmonia com o padrão vibratório de todo o corpo.
De que maneira um órgão doente pode entrar em ressonância com as partes sadias do corpo?
Ouvindo os ritmos dos tambores, os cantos dos beduínos do deserto do Sinai, os cantos cerimoniais dos lakotas, lembrei-me de que o Universo foi criado a partir de um som primordial, exatamente aquilo que ensinam os cabalistas. Fazendo preces, entoando cânticos sagrados, suscitam-se modificações no seio da matéria. A cura consiste em reintroduzir esses sons no corpo; em outros termos, ao produzir os sons corretos, partes do corpo em ruptura de harmonia podem ser reconduzidas a um estado de equilíbrio, a um estado de saúde. É o que vivem os xamãs por meio de seus cantos. Para os xamãs amazônicos, entoar a palavra "jaguar" significa invocar o próprio animal; conseqüentemente, se um curandeiro canta o nome de um jaguar sagrado, um jaguar aparece. Um som sagrado estaria portanto conectado a um objeto real, que pode ser invocado pelo som.


Mas, para os xamãs, invocar o jaguar significa também identificar-se com aquele que vive em cada um de nós. Seus ensinamentos dispensavam aos seres investidos o conhecimento do padrão vibratório do jaguar. Eles ficavam em condições de ressoar em sincronismo com a egrégora do jaguar, ou seja, com todos os jaguares do planeta. Cada animal é representado por um totem, que simboliza o fato de que todos nós somos irmãos e irmãs na matéria viva.
Essa maneira de conceber o Universo encontra um eco na física quântica. Existe uma interconexão fundamental, religando tudo o que há. Pouco a pouco, consigo ver que os xamãs percebem o Universo de uma maneira bem mais ampla que aquela proposta pelos modelos mecânicos do paradigma cartesiano ou da relatividade galileana. Eles não apreendem a realidade numa relação de causa a efeito, a realidade é para eles como uma teia de aranha, uma rede próximo das interconexões observadas nos modelos da física quântica.

Os antigos xamãs saxônicos da Europa do Norte chamavam a essa teia de aranha,
espécie de Internet espiritual, de WIRD.
Wird é uma velha palavra inglesa que gerou especialmente a palavra weird (estranho, curioso) em inglês moderno. Traduz-se literalmente por "destino", embora englobe uma noção bem mais ampla. Ela mesma provém de uma raiz indo-européia que deu origem ao termo rúnico urdhr ou, mais tarde, o alemão werden, devir, tornar-se, vir a ser. Por trás dessa noção, encontra-se a concepção oriental de carma. Mas em sua origem wird designava uma maneira de ser que implicava o poder de controlar o destino, um modo de vida no qual os acontecimentos achavam-se ligados uns aos outros exatamente como os fios cruzados de uma teia de aranha. Vem daí a idéia da vibrante teia do wird ou do destino.
Nos sistemas de crença tradicionais, especialmente anglo-saxônicos, o que era wird tinha uma necessidade, uma" existência" tão palpável que não podia ser negada; a vibração e os motivos vibratórios eram extremamente importantes. Todos os acontecimentos ligavam-se uns aos outros. Teoricamente, a influência de um acontecimento sobre outro podia ser sentida por toda a parte, já que a teia inteira vibrava. Mas tal conexão nunca era realmente evidente para a gente comum, que uma doença ou outros reveses deixavam desamparada. O que explica a necessidade para o xamã de "ver" a conexão e explicar seu sentido. Assim, surgiu uma nova maneira de compreender a vida. Para alcançar essas novas visões, o xamã praticava geralmente uma série de rituais destinados a modificar sua consciência. O xamã podia assim curar, ver o futuro, "metamorfosear-se", transferindo seu espírito para animais ou plantas.
Os xamãs não se contentam em perceber as conexões entre as coisas e os seres, eles as modificam.
Eles são para falar propriamente, os ancestrais dos psicólogos e dos médicos modernos. Para os antigos, eram os guardiães da sabedoria e ao mesmo tempo os contadores de histórias.
Na física moderna, wird poderia ser traduzido como "não-localidade", um termo que designa aquilo que em outros referentes nomear-se-ia uma ação à distância.
Em 1964, Bell compreendera isso perfeitamente. A idéia de que a matéria podia deslocar-se mais rápido do que a luz começava a encontrar ressonância entre vários estudiosos. Assim, o teorema de Bell postulava que, quando duas partículas gêmeas afastavam-se uma da outra à velocidade da luz, uma ação sobre uma delas induzia uma reação na outra. As duas partículas ficariam intimamente ligadas malgrado a distância, como se uma informação circulasse entre elas a uma velocidade superior à da luz. Parece, portanto, que uma informação supralumínica existe realmente. Numerosas experiências visam hoje confirmar essa teoria. "Se elas trouxerem as provas esperadas, a teoria da informação supralumínica poderá servir de base para a explicação de certos fenômenos psíquicos como a telepatia. A realidade quântica torce-se sem cessar de maneira imprevisível, pondo a descoberto paradoxos comparáveis aos koans do zen, esses 'enigmas absurdos utilizados pelos mestres zen para transmitir seu ensinamento”.
Em 1935, na Universidade de Princeton, três pesquisadores, Einstein, Podolsky e Rosen, tentaram refutar a física quântica, muito rica em paradoxos para o gosto deles. Estabeleceram um protocolo de experimentação destinado a provar que os resultados que ela prediz são contrários ao senso comum. A realidade mostrou que os três estavam errados, e eles demonstraram, a contragosto, aquilo que desejavam refutar.
O teorema de Bell revelou que as "partes distintas" do Universo estariam ligadas de modo íntimo e imediato no nível mais profundo e mais fundamental. Os físicos logo compreenderam que essa situação singular levantava uma questão delicada: como dois elementos quaisquer podem comunicar-se mais rápido que a luz?
Na época em que Bell elaborou sua teoria, essa experiência não passava de uma vaga noção. Em 1972, John Clauser e Stuart Freedman, do laboratório de física da Universidade de Berkeley, Califórnia, tentaram realizá-Ia e com isso validaram as previsões estatísticas de Bell.
O teorema de Bell não se contenta em sugerir que a realidade é muito diferente do que parece, ele o exige. Os físicos provaram que nossa visão racional do mundo é profundamente insatisfatória. Em meados dos anos 70, alguns chegaram a afirmar que as partículas gêmeas das experiências EPR (Einstein, Podolsky e Rosen) e Clauser-Freedman, ainda que espacialmente separadas, permanecem conectadas na ausência de qualquer troca de sinais.

A física quântica redescobria conceitos muito antigos. Estudando os aspectos moleculares da matéria, alguns físicos quânticos chegam a concluir que a matéria não poderia existir sem uma consciência para percebê-la. Todavia essa noção de consciência continua sendo muito vaga. A visão cartesiana clássica não admite que a consciência possa exercer uma influência sobre o mundo físico. Seus partidários utilizariam outra palavra para descrever o que se passa no momento de uma observação, falariam de registro, de medida, de reconhecimento, de preparação ou de estado. Diriam que um padrão de probabilidades foi reduzido de uma multidão a um resultado exato, preciso. No entanto, nenhum físico negaria que sem o reconhecimento de um padrão esse resultado não poderia ser percebido. A consciência e o mundo material estão conectados, e a maneira que o cientista escolhe para fazer uma observação afeta o objeto observado.
Observador e observado estão, portanto, ligados de maneira significativa.
Essa visão do mundo vai ao encontro das correntes de pensamento xamânicas, que exploram há milênios a realidade situada além do universo sensorial. A inclusão da consciência humana nas teorias científicas é um fato recente. Ela poderia, em muitos sentidos, favorecer novas pistas suscetíveis de transcender o quadro convencional da ciência. Mas há consciência e Consciência, a segunda sendo talvez a dos xamãs. Se uma tal entidade existe, podemos nos unir a ela e entrar em ressonância com as forças fundamentais como o fazem as curandeiras e os curandeiros desde a origem. Essa união é possivelmente uma conexão quântica que religa tudo o que vive no Universo. Como poderíamos desenvolver uma relação mais sensível, mais sutil com nós mesmos e com o universo no qual vivemos? Talvez aceitando aventurar-nos no estado de consciência xamânica que une o ser humano à criação visível e invisível.
Esta conexão é realizada quando um xamã entoa um canto sagrado ou quando um sacerdote recita um conjunto de mantras. O xamã entra em ressonância com os animais totens que residem no interior de seu ser. Assim, ele não apenas é capaz de curar a si mesmo, mas também ainda a quem quer que sofra de uma doença similar, utilizando a energia proveniente do animal-espírito.
Os ritmos complexos e às vezes encantatórios da música xamânica imitam o processo sem fim da Natureza e celebram a globalidade do Universo. Assim como o trovão que chega na primavera e no verão permite que as pradarias das grandes planícies refloresçam, a música ameríndia alimenta o terreno do coração humano. Geralmente, ela combina um tambor, uma flauta ou um chocalho e cantos. Os instrumentos são descritos como as contrapartes das poderosas forças elementares do trovão. A batida do tambor é o clarão que permite ao coração humano serpentear fora de sua dependência. A melodia da flauta (seus seis furos representam as quatro direções cardeais, mais o céu e a terra) é o vento que purifica e insufla a vida no coração. O som do chocalho representa a luz que ilumina o coração e carrega o ser de energia. Os ritmos musicais, as preces e os ruídos da Natureza provocam aquilo que Michael Harner chamou de "estado de consciência xamânica".

*O FÍSICO, O XAMÃ E O MÍSTICO (Patrick Drouot- tradução de Luca Albuquerque) Rio de Janeiro- Record - Nova Era. 1999.